Tuesday, January 03, 2017

Doentes estão morrendo - a crise da saúde pública da Grécia

Sete anos de austeridade viram os hospitais tornarem-se "zonas perigosas", dizem os médicos, com muitos temendo que o pior esteja por vir

| Helena Smith em Atenas | The Guardian | 1/1/2017 |

O aumento das taxas de mortalidade e das infecções que ameaçam a vida e a escassez de pessoal e de equipamento médico estão prejudicando o sistema de saúde da Grécia: a tão buscada perseguição da austeridade pelo país massacra os mais fracos da sociedade.

Dados e comentários de médicos e sindicatos sugerem que o Estado mais caótico da União Europeia está em meio a uma crise de saúde pública. "Em nome de duras metas fiscais, as pessoas que poderiam sobreviver estão morrendo", disse Michalis Giannakos, que lidera a Federação Pan-helênica de Funcionários de Hospitais Públicos. "Nossos hospitais tornaram-se zonas perigosas."

Os números divulgados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças revelaram recentemente que cerca de 10% dos doentes na Grécia estavam em risco de desenvolver infecções hospitalares potencialmente fatais, com cerca de três mil mortes atribuídas a elas.

A taxa de ocorrência foi dramaticamente maior em unidades de terapia intensiva e salas neonatais, diz o corpo médico. Embora os dados se refiram a surtos entre 2011 e 2012 - os últimos números oficiais disponíveis - Giannakos afirma que o problema só tem piorado.

Como outros profissionais que trabalharam no sistema de saúde nacional grego desde a sua criação, em 1983, o líder sindical diz que a culpa pelos problemas é da falta de pessoal, do saneamento inadequado e da ausência de produtos de limpeza. As reduções foram exacerbadas pelo uso excessivo de antibióticos, disse ele.

"Para cada 40 pacientes, há apenas um enfermeiro", ele comenta, mencionando o caso de uma mulher saudável que morreu no mês passado após uma cirurgia de rotina na perna, em um hospital público em Zakynthos. "Os cortes são tais que, mesmo em unidades de terapia intensiva, perdemos 150 leitos".

"Frequentemente, os pacientes são colocados em camas que não foram desinfetadas. Os funcionários estão tão sobrecarregados que não têm tempo para lavar as mãos e muitas vezes não há sabão antisséptico, de qualquer maneira."

Nenhum outro setor foi afetado na mesma medida pela crise econômica da Grécia. Inchado, esbanjador e corrupto, para muitos, os serviços de saúde eram indicativos de tudo o que estava errado com o país e, como tal, necessitando de reforma.

Reconhecendo as deficiências, o governo anunciou no mês passado que planejava nomear mais de 8.000 médicos e enfermeiros em 2017.

Desde 2009, a despesa per capita na saúde pública foi cortada por quase um terço - mais de € 5bn - de acordo com a organização para cooperação e desenvolvimento econômico. Até 2014, as despesas públicas haviam caído para 4,7% do PIB, desde um máximo de 9,9% anterior à crise. Mais de 25.000 funcionários foram demitidos, com suprimentos tão escassos que os hospitais muitas vezes ficam sem remédios, luvas, gaze e lençóis.

No início de dezembro, Giannakos, enfermeiro por treinamento, liderou uma marcha de protesto, que começou no sujo prédio do ministério da saúde e terminou fora do gabinete neoclássico do primeiro-ministro, Alexis Tsipras. No ministério, técnicos hospitalares ergueram um muro de tijolos vazados e nele penduraram um cartaz com as palavras: "O ministério mudou-se para Bruxelas."

Poucas economias ocidentais avançadas promulgaram um ajuste fiscal na escala da Grécia. Nos seis anos desde que recebeu o primeiro de três ajudas para conter a bancarrota, o país reforçou o aperto draconiano do cinto em troca de mais de € 300bn em empréstimos de emergência. A perda de mais de 25% da produção nacional - e uma recessão que tem visto cada vez mais pessoas recorrerem a cuidados de saúde públicos- agravou os efeitos corrosivos dos cortes que, no caso dos hospitais públicos, têm sido tão indiscriminados quanto profundos.

A pressão para cumprir as metas orçamentárias impostas pelos credores significa que, somente em 2016, as despesas no setor terão diminuído em 350 milhões de euros sob a administração do Syriza, o partido esquerdista que antes havia criticado a austeridade, disse Giannakos.

Mais de 2,5 milhões de gregos foram deixados sem qualquer cobertura de saúde. A escassez de peças sobressalentes é tal que as máquinas de digitalização e outros equipamentos sofisticados de diagnóstico tornaram-se cada vez mais defeituosos. Os exames de sangue básicos já não são realizados na maioria dos hospitais porque as despesas de laboratório foram reduzidas. Os cortes salariais pioraram o moral baixo.

"O maior problema é a escassez de pessoal porque as pessoas são aposentadas e nunca substituídas", disse o Dr. Yiannis Papadatos, que dirige a unidade de cuidados intensivos de um dos três hospitais pediátricos em Atenas. "Depois, há o problema do equipamento e, periodicamente, falta de suprimentos como luvas, cateteres e tecidos de limpeza."

Pequenos atos de heroísmo têm feito muito para manter o sistema quebrado à tona: médicos e enfermeiras trabalham horas extras, com doadores e filantropos também ajudando.

Papadatos disse: "Fui criado em parte no Quênia por pais que enfatizaram as virtudes de ajudar os outros. Hoje em dia, passo muito tempo pedindo ajuda aos amigos ou ao setor privado, quando nosso hospital fica sem suprimentos. Os monitores que usamos para rastrear ritmos cardíacos, pressão arterial, esse tipo de coisa, foram todos doados. As pessoas gostam de dar. Faz com que se sintam bem.

Os sindicalistas argumentam que os cuidados de saúde são um alvo fácil, porque sucessivos governos se recusaram a lidar adequadamente com a evasão fiscal, o maior dreno dos cofres públicos. Numa rara admissão pública, o Fundo Monetário Internacional admitiu recentemente que os cortes tinham sido tão brutais que "os serviços públicos básicos como os transportes e os cuidados de saúde estão comprometidos".

Mas, em um momento em que a crise da dívida grega acendeu novamente, após o anúncio controverso de Tsipras de uma série de benefícios sociais, há muitos que temem pior está por vir.

Um deles é o médico formado na Inglaterra Michalis Samarakos, que acredita que, embora o sistema de saúde esteja precisando de mais reformas, também corre o risco de ficar sem especialistas e clínicos. Já houve um êxodo maciço de médicos para o Exterior, principalmente Alemanha e Reino Unido, como resultado da falta de oportunidades.

"Os melhores estão saindo porque seu potencial não pode ser desenvolvido aqui", disse ele. "Eu posso ver o ensino de estudantes de sexto ano na Universidade de Atenas, todo mundo quer uma referência, todo mundo quer ir.

"Tornou-se um problema crescente. Não temos nefrologistas, por exemplo, porque não há perspectivas de especialistas, dentro ou fora do sistema [na prática privada].

"Os médicos residentes são a espinha dorsal de qualquer hospital - sem eles os hospitais não podem funcionar. A menos que haja uma grande mudança, minha preocupação é que as coisas só podem piorar."

https://www.theguardian.com/world/2017/jan/01/patients-dying-greece-public-health-meltdown

Saturday, March 05, 2016

Dois pesos, duas medidas

Tem toda a razão quem comenta que não é possível esconder o fato de o ex-presidente Lula ter sido conduzido coercitivamente, ou seja, à força, para depor na Polícia Federal sobre as suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro que pesam contra ele. (Extraído de postagem feita no Facebook por "alguém".)

É por isso que o Juiz Sérgio Moro está sendo falacioso quando afirma, em nota, que "Cuidados foram tomados para preservar, durante a diligência, a imagem do ex-Presidente." Afinal, Moro afirmou na mesma nota que "essas medidas investigatórias visam apenas o esclarecimento da verdade e não significam antecipação de culpa do ex-Presidente."

Por que o depoimento de Lula não foi colhido em sua própria casa? Por que esse show midiático, com helicópteros sobrevoando seu prédio, enquanto outros políticos tão ou mais acusados quanto Lula, com suspeitas muito mais sérias, são preservados?

As máximas dos "dois pesos e duas medidas" ou "aos amigos, tudo, aos inimigos, o rigor da lei" parecem prevalecer.

Mais do que "combater a corrupção", todas essas atitudes visam "combater o PT". Claro que esse combate é perfeitamente aceitável dentro do ambiente democrático. Mas é preciso que seja feito dentro da lei e da decência. Expor uma pessoa suspeita à execração pública, quando não se provou nada contra ela, é ilegal e imoral. Romper com o pressuposto de inocência coloca a todos nós em risco. Voltaremos à Justiça Medieval, em que uma pessoa devia provar sua inocência? Outra máxima, a de que "quem não deve, não teme", vai acabar esquecida?

Segue abaixo a íntegra da nota do Juiz Sérgio Moro, extraída do site G1.

Nota oficial da 13ª Vara Federal de Curitiba

A pedido do Ministério Público Federal, este juiz autorizou a realização de buscas e apreensões e condução coercitiva do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para prestar depoimento. Como consignado na decisão, essas medidas investigatórias visam apenas o esclarecimento da verdade e não significam antecipação de culpa do ex-Presidente. Cuidados foram tomados para preservar, durante a diligência, a imagem do ex-Presidente. Lamenta-se que as diligências tenham levado a pontuais confrontos em manifestação políticas inflamadas, com agressões a inocentes, exatamente o que se pretendia evitar. Repudia este julgador, sem prejuízo da liberdade de expressão e de manifestação política, atos de violência de qualquer natureza, origem e direcionamento, bem como a incitação à prática de violência, ofensas ou ameaças a quem quer que seja, a investigados, a partidos políticos, a instituições constituídas ou a qualquer pessoa. A democracia em uma sociedade livre reclama tolerância em relação a opiniões divergentes, respeito à lei e às instituições constituídas e compreensão em relação ao outro.

Curitiba, 05 de março de 2016.

Juiz Federal
Sergio Fernando Moro

Sunday, January 03, 2016

Fotos de 2015

Caminhada dos zumbis - Salvador


Ulisses
Bem te vi (Pitangus sulphuratus)

Casaca de couro (Pseudoseisura cristata)


Grito dos excluídos - Salvador

Urubu de cabeça preta (Coragyps atratus)

Libélula - Parque de Pituaçu

Sem face

Mário Sérgio (Tico)

João Pedro
Olga na greve dos petroleiros

Faxineiros do céu - Torre Pituba

Carnaval no Pelourinho

Mariene no Bar Quintal do Raso da Catarina

Torre Pituba - operário

Vinícius

Pituaçu - Parapente

Leonardo

Bem te vi (Pitangus sulphuratus)

Lavadeira mascarada (Fluvicola nengeta)

Gato - Torre Pituba

Cogumelo em mangueira - Salvador

Gabriel no Solar do Unhão
Praia do Corsário - Salvador

O operário e a lavadeira (F. nengeta)

Sem-terrinha



Tuesday, March 06, 2012

Vendedor de DVD pirata absolvido

O Juiz de Direito Roberto Coutinho Borba, da 2ª Vara Criminal da Comarca de Alvorada, considerou improcedente a denúncia do Ministério Público contra um homem que foi flagrado vendendo DVD s piratas no centro da cidade de Alvorada.

O Juiz considerou que a conduta perpetrada pelo agente é flagrantemente aceita pela sociedade e, por tal motivo, impassível de coerção pela gravosa imposição de reprimenda criminal.

Basta circular pelas ruas e avenidas centrais de qualquer cidade deste País para que se vislumbre milhares de pessoas comprando CDs e DVDs falsificados, sem qualquer receio de imposição de abordagem policial. E o mais espantoso, é que a prática de fatos afrontosos aos direitos autorais são cometidos às escâncaras em diversos setores das classes média e alta, mas, como costuma acontecer em um sistema jurídico afeto à seletividade, apenas as camadas populares arcam com o revés da incidência estigmatizante do Direito Penal, afirmou o magistrado.

Na sentença, o Juiz explicou ainda que, no caso em questão, deve ser aplicado o princípio da adequação social, que foi desenvolvido sob a premissa de que uma conduta socialmente aceita ou adequada não deve ser considerada como ou equiparada a uma conduta criminosa.

Assim, foi considerada improcedente a denúncia do Ministério Público, absolvendo-se o réu no crime de violação dos direitos autorais.

Processo nº: 003/2.10.0009449-0

http://tj-rs.jusbrasil.com.br/noticias/3041527/venda-de-dvd-pirata-nao-e-considerado-crime-de-violacao-autoral

Saturday, January 14, 2012

Como funciona o diferencial dos automóveis

Engenharia nem de longe é o meu forte. Enquanto engenheiros vêem o mundo com a precisão dos encaixes das engrenagens, o mundo dos geólogos é cheio de irregularidades - os "encaixes" da natureza acontecem por acaso e tendem a um equilíbrio dinâmico, sempre sofrendo alterações.

O vídeo a seguir, postado no youtube, mostra a solução que os engenheiros encontraram para o fato de que duas rodas em uma curva apresentam velocidades escalares diferentes, porque têm velocidades angulares iguais. Muito didático, o encontrei seguindo um link do facebook, que me levou até o site http://www.ghiorzi.org/diferencial.htm

Thursday, December 15, 2011

Primeira carta às esquerdas

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos surpreende positivamente com suas cartas às esquerdas. Aparentemente, ele não cogitou fazer um trocadilho, mas este lhe caiu bem. Suas cartas se põem bem mais à esquerda do que se afirmam todos que se afirmam "de esquerda", com uma análise bem mais ampla do que eu via nos tempos de doutrinação anticapitalista e antiditadura. Seus textos suscitam reflexão.

Nesta primeira carta, Boaventura (prefiro chamá-lo pelo primeiro nome, bem mais significativo que o sobrenome) lembra que, sem a oposição das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar sua vocação antissocial e, retomando Rosa de Luxemburgo, alerta que é urgente reconstruí-las para evitar a barbárie. Interessante, no entanto, é que ele nos lembra que
"A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante."
Salienta que o mundo mudou e, graças ao fato de que a posição de esquerda se fez presente e dominou boa parte do século XX:
  1. a diversidade floresceu nas nações;
  2. a democracia só interessa ao Capital como instrumento de acumulação;
  3. o capitalismo é amoral e não entende o que é dignidade humana;
  4. é preciso valorizar as realidades não capitalistas guiadas pela reciprocidade e cooperativismo;
  5. há que lutar contra a dominação da natureza pelo homem;
  6. a propriedade é um bem social se for uma entre várias formas de propriedade e todas devem ser protegidas - há bens comuns, como o ar e a água;
  7. a presença das esquerdas no século passado criou um espírito igualitário que deve ser preservado;
  8. o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer;
  9. embora o Estado seja meio monstro, meio anjo, tem papel importante para garantir a integridade de outros anjos.
Carta às esquerdas
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5169

Monday, November 28, 2011

Consente Quem Cala, ou O discurso de Vera Paiva, ou a Verdade não se cala

Conheci Vera Paiva, a Veroca, quando éramos estudantes na USP. Ela namorava com Marcelo Garcia, colega da Geologia. Ambos eram conhecidos líderes estudantis. Quando eu era calouro, me contaram que, em 1977, o Coronel Erasmo Dias, na invasão do ENE (Encontro Nacional de Estudantes) que ocorreu na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, gritava: Cadê a Vera? Cadê o Marcelo?

Somente muitos anos depois vim a saber que é a filha de Rubens Paiva, irmã de Marcelo Rubens Paiva... Quando recebi o texto abaixo, não pude me furtar a contribuir um pouco com ela nessa necessidade tão premente de que a verdade seja contada. Hoje, vendo esse discurso não lido, vejo com clareza que Erasmo Dias perseguia a Verdade, personificada na Veroca - curioso constatar que é exatamente isso que seu nome significa: Verdade...

Confesso que não entendo os motivos de nossos militares para insistir que essa história não seja contada - e não estou ironizando. Nossas Forças Armadas têm honra e dignidade suficientes para poderem mostrar com clareza os erros que foram cometidos e, assim, separar o joio do trigo. Será um passo importante para que a Nação se una em torno da liberdade e da cidadania.

Esta mesma carta foi publicada por Marcelo Rubens Paiva em seu blog.
Conheço, também, Luiz Flávio do Prado Ribeiro, filho do Coronel Luiz Antonio do Prado Ribeiro, encarregado de investigar a bomba do Riocentro, afastado das investigações logo no início por ser um militar digno que - todos sabiam - exporia os fatos. Sim, sempre houve e haverá brasileiros que honrem sua Pátria.

Como escreveu Marcelo Rubens Paiva, dirigindo-se aos militares brasileiros desta nova era: “Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura (…)Por que não limpar a fama da corporação? 
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.”

Sinto saudade de ver o Hino Nacional mais bonito do mundo sendo cantado com orgulho nas escolas.

Argemiro
Nota de Vera Paiva:

Seguem as anotações da minha fala que foi cancelada, segundo os jornais de hoje, por pressão dos militares. Assim começa muito mal...

Não fui desconvidada, simplesmente não falei! A minha volta diziam que a Pres. Dilma tinha que viajar e encurtaram a cerimônia, que alguém tinha falado um tempo a mais. Sai para uma reunião na UNB, ainda emocionada com o carinho que dispensou aos familiares e ex-presos políticos, um a um.

Agora entendo o pedido de desculpas da Ministra Maria do Rosário.



O discurso que não foi lido

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011, 11:00. Palácio do Planalto, Brasília.

Excelentíssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário. Demais ministros presentes. Senhores representantes do Congresso Nacional, das Forças Armadas. Caríssimos ex-presos políticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto tempo nessa luta.

Agradecemos a honra, meu filho João Paiva Avelino e eu, filha e neto de Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento histórico e, dentre as centenas de famílias de mortos e desapare cidos, de milhares de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime militar, o privilégio de poder falar.

Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo, estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em 2011, sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, seqüestros, humilhação e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isso que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? Inúmeros dados indicam que especialmente brasileiros mais pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda são cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou são presos arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos mais básicos à não discriminação e a integridade física e moral que a Declaração dos Direitos Humanos consagrou na ONU depois dos horrores do nazismo em 1948.

Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação constitucional e perpetuam ações herdeiras do estado de exceção que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.

O respeito aos direitos humanos, o respeito democrático à diferença de opiniões assim como a construção da paz se constrói todo dia e a cada geração! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua sustentação.

Nossa história familiar é uma entre tantas registradas em livros e exposições. Aqui em Brasília a exposição sobre o calvário de Frei Tito pode ser mais uma lição sobre o período que se deve investigar.

Em Março desse ano, na inauguração da exposição sobre meu pai no Congresso Nacional, ressaltei que há exatos 40 anos o tínhamos visto pela última vez. Rubens Paiva que foi um combativo líder estudantil na luta “Pelo Petróleo é Nosso”, depois engenheiro construtor de Brasília, depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era um bem sucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu país e pai de 5 filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter jogado vôlei e poder almoçar com sua família em um feriado. Intimado, foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois é a única prova de que foi preso. Minha mãe, dedicada mãe de família, foi presa no dia seguinte, com minha irmã de 15 anos. Ficaram dias no DOI-CODI, um dos cenário de horror n aqu eles tempos. Revi minha irmã com a alma partida e minha mãe esquálida. De quartel em quartel, gabinete em gabinete passou anos a fio tentando encontrá-lo, ou pelo menos ter noticias. Nenhuma noticia.

Apenas na inauguração da exposição em São Paulo, 40 anos depois, fizemos pela primeira vez um Memorial onde juntamos família e amigos para honrar sua memória. Descobrimos que a data em que cada um de nós decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes...Aceitar que ele tinha sido assassinado, era matá-lo mais uma vez.

Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um caminho para a paz.

Excelentíssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, além das marcas na alma do período de exceção e de sermos mulheres, mãe, funcionária pública. Compart ilhamos os direitos humanos como referência ética e para as políticas públicas para o Brasil. Também com 19 anos me envolvi com movimentos de jovens que queriam mudar o pais. Enquanto esperava essa cerimônia começar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa mobilização começou. Na diretoria do recém fundado DCE-Livre da USP, Alexandre Vanucci Leme, um dos jovens colegas da USP sacrificados pela ditadura, ajudei a organizar a 1a mobilização nas ruas desde o AI-5, contra prisões arbitrárias de colegas presos e pela anistia aos presos políticos. Era maio de 1977 e até sermos parados pelas bombas do Coronel Erasmo Dias, andávamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo uma carta aberta a população cuja palavra de ordem era

HOJE, CONSENTE QUEM CALA.

Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje, no ato que sanciona a Comissão da Verdade . Para esclarecer de fato o que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem calar consentirá, não é mesmo?

Se a Comissão da Verdade não tiver autonomia e soberania para investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos cúmplices do sofrimento de milhares de famílias ainda afetadas por essa herança de horror que agora não está apoiada em leis de exceção, mas segue inquestionada nos fatos.

A nossa carta de 1977, publicada na primeira página do jornal o Estado de São Paulo no dia seguinte, expressava a indignação juvenil com a falta de democracia e justiça social, que seguem nos desafiando. O Brasil foi o último país a encerrar o período de escravidão, os recentes dados do IBGE confirmam que continuamos uma país rico, mas absurdamente desigual... Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no mesmo período fizeram. Somos cobrados pela ONU, pelos organismos internacionais e até pela Revista Economist, a avançar nesse processo. Todos concordam que re-estabelecer a verdade e preservar a memória não é revanchismo, que responsáveis pela barbárie sejam julgadas, com o direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fun damental para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir a paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram, a África do Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a valorize.

Termino insistindo que a DEMOCRACIA SE CONSTRÓI E RECONSTRÓI A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstruída a CADA GERAÇÃO.

E que hoje, quem cala, consente, mais uma vez.

Obrigada

Vera Paiva

Universidade de São Paulo - PST & NEPAIDS

av. Prof. Mello Moraes, 1721 SP- Brasil 05508-030

tel 55-11-30914184 /30914362 fax 30914460

Thursday, October 20, 2011

O vagalume e o sapo

Meu pai me ensinou uma poesia que, até onde sei, seria de Catulo da Paixão Cearense:

O vagalume e o sapo

Em meio da espessura,
um vagalume a volitar,
a iluminar com sua lamparina
esperaldina
a noite escura.
Aproximou-se um sapo, repelente,
que lhe alvejando o vírus, iracundo,
fê-lo apagar sua luz fosforescente
caindo ao chão, já quase moribundo.
E o vagalume perguntou-lhe, então:
-"Ó sapo vil, imundo,
por que cuspiste sobre mim
teu vírus nauseabundo?"
E o sapo sapejou-lhe:
-"Se fosses mais sagaz
e se melhor pensasses
esta pergunta asnal não me farias.
Inseto luminoso! Eu não te cuspiria
se não tivesses luz,
se não brilhasses!"

Saturday, October 15, 2011

Bebê nerd aprende a diferença entre revista e iPad

Uma bebezinha tenta usar uma revista como se fosse um i-pad. Comentário do pai (ou da mãe): "Para minha filha, uma revista é um iPad que não funciona. Será assim por toda a vida. Steve Jobs programou seu sistema operacional."

Comentário de um internauta: Esta gente que usa iPads é tão inteligente, que nem sequer sabe que não pode filmar "ao alto".

Copiado do Correio da Manhã português.

O que interessa é observar que uma criança pequena experimenta o mundo à sua volta. Seu "sistema operacional" ainda está sendo programado... por ela.

Monday, September 12, 2011

O leão e a professora

Estava lendo meus e-mails quando deparei com a mensagem abaixo, repassada por Max Brandão Cirne Júnior, filho do autor deste desabafo. Para esclarecer a todos, Planserv é o plano de saúde dos servidores estaduais, os funcionários públicos do Estado da Bahia. Recentemente, o governo do Estado, eleito pelo meu partido - o PT -, mandou uma proposta para a Assembleia Legislativa da Bahia para reduzir os custos desse plano, através de cortes nos atendimentos.

Pois bem, seria fácil apenas criticarmos o Governo, que olha para o "macro" e esquece que o conjunto é feito de indivíduos. Vejamos, porém, que o problema transcende a questão político-administrativa e passa a ser cultural. A imprensa toda se mobiliza para ajudar um leão mas não se sensibiliza com a terrível situação de uma professora. Não quero isentar, com este comentário, aquilo que considero responsabilidade do Governo - insisto que não se pode fechar os olhos para a situação individual. Mas que estou cansado de ver o povo se emocionar com os bichinhos e deixar de lado as pessoas, ah! isso estou mesmo!

Leia o texto abaixo, de autoria de Max Brandão Cirne, um pai indignado.

Argemiro Garcia

O leão Ariel e a minha filha

Max Brandão Cirne

Ontem
a televisão anunciou a morte do leão ARIEL depois de padecer por muito tempo de paralisia das patas dianteiras e traseiras. Programas de televisão já haviam feito reportagens falando do seu sofrimento, médicos veterinários se ofereceram gratuitamente para tratá-lo, se revezando dia e noite. Montaram uma UTI de última geração na casa em São Paulo, enquanto milhares de reais foram doados pelas pessoas. A imprensa brasileira e a de outros países noticiaram com grandes manchetes a sua morte e os canais de televisão deram grande destaque pela morte do coitadinho do Ariel.

Mas, afinal o que tem a ver o ARIEL com a minha filha?

Ela está com sete cistos no cérebro que crescem na proporção de meio milímetro por mês. É uma professora com pós graduação, mãe de família, diretora abnegada de uma escola pública, paga um plano de saúde chamado PLANSERV, já teve negado quatro (4) pedidos pelo Estado da Bahia e corre sério perigo de vida conforme os laudos médicos, a imprensa nunca a entrevistou, não recebe nenhuma doação como aquelas que abarrotaram a casa do Ariel, nem estamos pedindo, o médico cobra cem mil para operá-la, nenhum médico se ofereceu gratuitamente para realizar a operação nem acompanhá-la dia e noite com aquela mesma abnegação dos médicos do Ariel.

Moral da história.

Neste país é melhor ser bicho do mato que ser professor do Estado.

E ainda tem gente que sonha em ser professor...

Max Brandão Cirne
Santo Antonio de Jesus
(75) 8803-1829

Max Brandão Cirne Júnior
(75) 8818-4262 (Celular)
(75) 8207-4341 (Celular)
(75) 3162-1407 (Trab Diurno)
(75) 3632-4731 (Trab Noturno)